Experiências

A última viagem do Comandante Jack, meu cão

Quando me aposentei no início de 2013, me preparei para mudar radicalmente meu estilo e ritmo de vida. Entre as providências que tomei, uma foi cormprar um cão, pois eu nunca tivera um animal de estimação. Minha expectativa era que ele preenchesse uma parte do meu tempo livre, além de experimentar a tão falada amizade/amor incondicional do cão para com seu dono. O escritor checo Milan Kundera traduziu bem o que eu esperava do meu cão, ao dizer que “Os cães são o nosso elo com o paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz”.

Fiquei em dúvida entre quatro raças de cães de guarda: pastor alemão, pastor belga malinois, doberman ou rottweiller. Pesquisei bastante e visitei vários canis na Espanha, onde eu morava. Escolhi um rottweiller de um bom canil, daqueles que dão nomes complicados para suas ninhadas. O cão que eu comprei no final de 2012 tem no seu passaporte espanhol, necessário para poder trazê-lo para o Brasil, o nome de Jáckomo Rottmans Bull. Mudei este nobre nome para Comandante Jack, assim, finalmente eu teria uma chance de dar bronca diariamente num comandante (brincadeira com meus amigos pilotos). Gostei do cão e tomei as providências para trazê-lo na minha viagem de volta ao Brasil. Já no Aeroporto de Madrid – Barajas, ele chamou a atenção passageiros e tripulantes que queriam tocá-lo e saber mais sobre ele. Na chegada ao Brasil ele também era admirado pelas pessoas que estavam em nossa volta.

Chegada do comandante Jack

Como eu nunca havia tido um cachorro, contratei um adestrador para o Jack, e para mim também. O Rodrigo Moura de Paiva, especialista em cachorros de grande porte, foi o responsável pela minha convivência harmoniosa e agradável com o meu novo e único cão, então com cinco meses de idade. O Comandante Jack cresceu sob os meus cuidados e era o companheiro nas minhas caminhadas diárias até o topo do Morro do Moreno, em Vila Velha, onde eu moro.

Além da segurança de caminhar com um cão de grande porte e cara de poucos amigos, Jack sempre chamava a atenção de quem o encontrava nas trilhas. Era conhecido por alguns garotos de mountain bike que fizeram suas primeiras trilhas sob a vigilância dele e durante os últimos cinco anos o viram crescer na mesma proporção que eles saiam da sua adolescência.

não sendo daqueles que convivem com o cão como seu semelhante, dentro de casa e às vezes dormindo na própria cama, eu tratava-o como um cão amigo, que eu alimentava, levava para passear e limpava pessoalmente seu canil diariamente. Acho que ele gostava muito de mim.

No meu período sabático neste ano de 2018 fui à Europa com a Cris, minha esposa, e ficamos 78 dias visitando nossos amigos e fazendo o Caminho de Santiago. Para isto deixei o Jack no Stone Pet Center, num excelente canil do meu amigo Douglas, onde ele já havia ficado por uma semana há algum tempo atrás. Um dia o Douglas me enviou um WhatsApp avisando que o Jack havia amanhecido mal disposto e que, por precaução, ele recomendava fazer uns exames, o que eu autorizei imediatamente. Como ele nunca havia adoecido, intuí que tratava-se de uma adaptação ao novo ambiente do canil. Talvez estivesse sentido a minha falta e da rotina dos últimos cinco anos, o que para ele era toda a sua vida, mas, de vez em quando me vinha um pressentimento que eu não mais voltaria a ver o meu único e querido cão.

Ao chegar de volta da minha longa viagem, liguei para o Douglas e o mesmo me disse com a voz embargada que o Jack morreu. Eu sabia que um dia isto iria acontecer e que eu ficaria triste, mas somente agora é que compreendi a importância que ele teve neste período de adaptação da minha vida agitada, para um ritmo mais tranquilo de um aposentado, ou de semi-aposentado, melhor dizendo. Somente agora, eu percebi que o Jack era um animal com quem eu havia assumido um compromisso de cuidar para o resto da sua vida. Ele passou a ser uma necessidade para mim. Em troca, ele foi o apoio diário e discreto nos meus momentos de reflexão sobre a vida que eu iria ter neste outono da existência. Sem conversar com o Jack, eu expressava todas as minhas angústias e dúvidas, o que ajudou a fazer a minha vida bem melhor do que eu imaginara para esta fase. Ele não me entendia, não “falava” comigo, mas me apoiava nos meus pensamentos e desejos mais íntimos. Foi o amigo mais presente, sem ter ouvido uma confidência, um lamento, uma queixa. Não precisei falar com ele, ele simplesmente estava lá. Adeus meu amigo Jack.

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