Textos Filosóficos

Sêneca, Estoicismo, Suicídio

O objetivo deste trabalho é apresentar uma reflexão sobre como  Sêneca  entende o suicídio. Busca-se aqui explicar o suicídio à luz de textos da filosofia antiga, tendo como base de sustentação o pensamento estoico. Inicia-se esta reflexão através de trechos das Epístolas a Lucíolo, do filósofo, dramaturgo, político e escritor latino Lúcio Aneu Sêneca. Sêneca acredita que a consciência da morte deve fazer parte da formação do homem sábio, sendo um dos deveres da sua existência. Cabe à filosofia a desmitificação e eliminação da angústia e do medo da morte. Percebe-se no decorrer desta pesquisa, que o suicídio, palavra extraída do latim sui [si mesmo] e caedes [morte],  embora tenha recebido esta nomeação somente no século XVIII, a ação de por fim à própria vida vem sendo descrita desde a antiguidade.  Encerra-se este exercício acadêmico com um posicionamento pessoal sobre o tema exposto do decorrer deste trabalho.

          Palavras-chave: morte, felicidade, estoicismo, vida, suicídio.

A escolha da obra de Sêneca como base para este trabalho sobre suicídio, deu-se em função das várias fases da vida deste pensador, que, tendo nascido no seio de uma rica família de Córboda, Espanha, educado em Roma e nomeado membro do Senado romano, experimentou o triunfo político porém também viveu com grande privação material durante dez anos na condição de desterrado na Córsega, tendo voltado ao centro do poder como encarregado da educação de Nero, filho do imperador Cláudio com Agripina. Com esta vasta experiência de vida, considera-se que o mesmo tenha maturidade e sapiência para discorrer sobre este tema. Sêneca apropriou-se do estoicismo para enfrentar os desafios que a vida lhe impôs. Impressiona pela espantosa maneira com que ele se dedicou à leitura e fidelidade com seguiu os ensinamentos de Zenão, Cleanto e Crisipo, fundadores do estoicismo elaborado três séculos antes de Sêneca (VEYNE, 2015, p. 49). O estoicismo replicou duas tradições do pensamento grego que se relacionam com o ideal do sábio, pregando a paciência e o esforço para dominar e, se possível, eliminar os maus pensamentos e hábitos trazidos desde o nascimento. Assim procedendo obedecer-se-ia aos desígnios que a natureza reservou para todos os homens, a saber: ser livre e feliz. “A felicidade se resume a uma segurança infalível (summa vitae beatae est solida securitas)”. Segundo os estoicos esta segurança somente seria alcançada através de um intenso e constante treinamento e da clareza de pensamento de que os infortúnios e as humilhações não têm qualquer valor, e que, para ser feliz necessitamos apenas daquilo que a natureza exige para a manutenção da vida: um pouco de comida e água (VEYNE, 2015, p. 50).

O treinamento consistiria também numa auto-avaliação constante, baseada nos ensinamentos filosóficos. Sêneca cita que os discípulos de Epicuro evocavam a lembrança deste filósofo como método para avaliar suas ações ao sugerir que se agisse sempre como se Epicuro os observasse. Tratar-se-ia de um método de auto-transfiguração, que   nos levaria a uma alegria constante e inabalável, com paz e harmonia na alma. Estes conceitos são condizentes com a maneira que Sêneca viveu, pensou e encarou a própria morte. “[…] o sábio epicurista [à maneira do sábio estóico] não teme nem a morte, nem os deuses, nem o sofrimento, e aprendeu a desdenhar ” (VEYNE, 2015, p. 49).

Na época de Sêneca a morte era  aceita como algo sem maior significado, valorizava-se a forma com que se morria, que deveria acontecer com dignidade e no momento adequado. Sábio era aquele que sabia morrer.   

O primeiro capítulo do livro VII do tratado Sobre os benefícios; a própria natureza, afirma Sêneca nesta página, oferece aos nossos olhos a lição mais importante que podemos aprender: “[…] Se nosso espírito sente não mais que desprezo por tudo que advém da boa ou da má sorte; se elevou-se acima das apreensões; […] se não teme mais nada dos deuses nem dos homens, consciente de ter pouco a temer do homem e nada dos deuses […] a morte não é um mal e que, antes, põe fim a nossos múltiplos infortúnios” (VEYNE, 2015, p. 47).

Morrer é um acontecimento natural e inevitável, enquanto saber morrer é sábio, ter medo da morte é humano. De acordo com o estoicismo o homem deveria manter sempre o cuidado consigo mesmo não por uma questão moral, mas como uma paradoxal receita de felicidade. “[…] quando nossa situação parece desesperadora, temos sempre à mão um remédio soberano, o suicídio, que Sêneca “[…] que iria, com efeito, morrer pelas próprias mãos […] considera com nítida boa vontade.” (VEYNE, 2017, p. 48).

 Sêneca comparava a morte a um porto:

[…] que algumas vezes deve ser buscado, nunca recusado, para o qual, se alguém foi levado durante seus primeiros anos de vida, não se deve queixar mais do que aquele que navegou rapidamente. […] com um os ventos inertes brincam, o detêm e fatigam com o tédio da lentíssima bonança; a outro um sopro persistente conduz ao destino muito prontamente. (PUENTE, apud SÊNECA, 2008, p. 67)

A morte surpreende alguns por surgir em tenra idade, e mesmo que estes tentem resistir seu fim será inexorável, enquanto a outros permite desfrutar de uma vida longa. Para Sêneca o importante é viver bem, devendo o homem sensato viver “o quanto deve e não o quanto pode […] Considera sempre de que qualidade seja sua vida, não de que quantidade” (PUENTE, apud SÊNECA,  2008, p. 68). Sêneca defende o suicídio ao aconselhar que devemos abreviar nossa vida quando não tivermos mais tranquilidade e ficarmos expostos a situações desagradáveis. Para ele a questão “não é morrer mais cedo ou mais tarde, o que importa é morrer bem ou mal” (PUENTE, apud SÊNECA, 2008, p. 68). Para Sêneca, a vida deve ser vivida enquanto agradável, não devendo ser estendida apenas por um desejo de alongamento do tempo de vida. Não se deve querer viver de qualquer forma, entregando ao destino a decisão sobre o dia da nossa morte. Ao invés disto, deve-se contrariar o destino tomando a decisão de dar fim à nossa vida. Deve-se buscar a excelência de saber viver e saber morrer, forma de pensar dos estoicos há mais de dois mil anos e que ainda hoje reverbera em manifestações artísticas como na letra do tango Balada Para mi Muerte, em que o poeta uruguaio Horacio Ferrer afirma:

“morire en Buenos Aires.

Sera de madrugada que es la hora en que moren

los que saben morir.”

Sócrates é citado por Sêneca como exemplo de quem sabe morrer, aceitando a sentença de morte sem medo e para fazer com que a lei fosse cumprida. É sintomática a forma como Sócrates se encarregou da própria defesa, recusando-se a usar os artifícios linguísticos dos sofistas que poderiam tê-lo livrado da pena de morte. Justificou sua atitude ao afirmar:

[…] talvez imagineis, senhores, que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir […] ao contrário, muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz, do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. Quer no tribunal, quer na guerra, não devo eu, não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte. (PLATÃO, 2004, p. 93).

          Para Sêneca “Cada um deve dar conta de sua vida também aos outros, da morte apenas a si próprio” (PUENTE, apud SÊNECA, 2008, p. 70), e a melhor morte é aquela que seja mais aprazível para o suicidário. Sêneca tem consciência de que sua opinião quanto à morte não é unanimidade entre seus contemporâneos. Até mesmo filósofos da época consideram o suicida um criminoso, que deveria entregar ao destino a decisão final pela sua morte ao invés de cometer suicídio. Considera os homens seres “preguiçosos e inertes” que, da mesma maneira que se acostumam a viver numa morada em condições adversas, têm dificuldades de desprender-se da vida. Sugere que sejamos desapegado do corpo habitando-o como alguém que está prestes a se mudar. Sêneca chama a atenção para o fato de que um dia teremos que encerrar “este convívio” e, por isso, temos que estar preparados para tal. Recomenda que as nossas expectativas sejam sempre modestas, pois assim estaremos sempre preparados para o bônus que a vida pode nos dar.  (PUENTE, apud SÊNECA, 2008, p. 71).

          Sêneca considera que a mais desprezível forma de morrer deve ser preferida do que viver na servidão. Exemplifica este posicionamento ao relatar o suicídio de um gladiador que, antes de entrar na arena de combate, recolheu-se para, aparentemente, fazer suas necessidades e, no único lugar que poderia dirigir-se sem ser impedido pelos guardas, suicidou-se enfiando na boca um pedaço de madeira usado para limpar os excrementos. (PUENTE, apud SÊNECA, 2008, p. 72). Outra situação digna de admiração por parte do filósofo refere-se à história de alguém que estava sendo levado por dois guardas para o “espetáculo matutino” quando fatalmente perderia a vida. Ao fingir estar ainda com sono, aproveitou a desatenção dos guardas que o conduziam para matar-se com as lanças dos seus algozes. (PUENTE, apud SÊNECA, 2008, p. 73). “Sêneca nunca fala de resignação; são os verbos ‘desdenhar’, ‘desprezar’ ou ‘desafiar’ que assomam de sua pena” (VEYNE, 2015, p. 78).

          As ideias expostas neste trabalho acadêmico são defendidas pelo aluno. Trata-se de uma solução pragmática, que desconsidera qualquer ponto de vista religioso, e que resolve com a morte questões não resolvíveis em vida. Entende-se que hodiernamente a humanidade conta com profissionais da área de saúde que se especializaram em assessorar os suicidários que decidiram por esta solução final, cuja finalidade última é garantir a dignidade humana nos seus últimos momentos. Termino este artigo reproduzindo trecho da Tese de Doutorado em Filosofia do Prof. Dr. Lucio Vaz, bastante apropriado e que coincide com o meu posicionamento filosófico sobre este tema vital:

A opinião de que a morte não é por si um mal, defendida, por exemplo, por estoicos e epicuristas, acarretou a defesa de que, em algum momento da vida, em algum contexto, seria desejável, racional ou aceitável livrar-se dela. O sábio (figura frequente entre os estoicos e plateia exclusiva de suas reflexões), diferentemente do insensato, sabe decidir quando a vida já não deve ser prolongada. (VAZ, 2014, apud SCARPAT, 2007, p. 79).

Referências Bibliográficas:

PLATÃO. Diálogos. Apologia de Sócrates. São Paulo: Ed. Nova Cultura, 2004.

SÊNECA. Epístolas a Lucíolo, VIII, epístola 70. IN: PUENTE, Fernando (Org.). Os filósofos e o suicídio.. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008, p. 67 – 75.

SÊNECA, Lúcio. Da felicidade. Porto Alegre: Ed. L&PM, 2010.

VAZ, Lúcio. Uma argumentação em torno do suicídio. 2014. 256 f. Tese (Doutorado em Filosofia) – Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2014.

VEYNE, Paul. Sêneca e o estoicismo. São Paulo: Ed: Três Estrelas, 2015.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *